Chuva produzida pela Amazônia vale mais de R$ 100 bilhões por ano

  • 01/03/2026
(Foto: Reprodução)
Soja precisa de 425 litros de água por metro quadrado por ano Reprodução/RBS TV Uma plantação de soja no Centro-Oeste pode depender de uma árvore que está a milhares de quilômetros dali, no meio da Amazônia. Assim como toda a agropecuária do país, que representa 6,5% do PIB nacional. Essa conexão é invisível, mas mensurável e agora também tem preço: mais de R$ 100 bilhões por ano. Um estudo internacional com participação de pesquisadores brasileiros estimou quanto vale, para a sociedade e para a economia, a chuva produzida pela floresta amazônica que está de pé. A conta considera apenas a Amazônia Legal brasileira e, com isso, o valor chega a US$ 19,6 bilhões por ano. A pesquisa foi publicada na revista científica "Communications Earth & Environment" neste mês e traz um alerta importante: a floresta de pé é importante para o meio ambiente, mas também para a economia. Isso impacta a commoditie que move a economia, a comida chega ao seu prato, o algodão que está na sua roupa e muito mais. A pesquisa é a evidência mais abrangente e robusta até agora sobre o valor econômico dos serviços ecossistêmicos prestados pela floresta para a humanidade. A gente sabe o quanto o agronegócio é importante para a economia, mas agora conseguimos mostrar o quanto ter a floresta em pé é importante para esse setor econômico. E isso é o que sabemos agora, imagina o quanto ela já não colaborou e o quanto isso ainda vai somar à economia nacional no futuro? Quanto vale essa água para o agro? Para chegar ao valor bilionário, os cientistas combinaram observações de satélite com simulações de modelos climáticos de última geração. A partir daí, calcularam quanto a chuva gerada pela floresta representa em dinheiro. Nas florestas tropicais em geral, cada metro quadrado de vegetação em pé contribui para cerca de 240 litros de chuva por ano. No caso da Amazônia brasileira, o número sobe para aproximadamente 300 litros por metro quadrado ao ano. Para você ter uma ideia do que esse volume significa, culturas agrícolas estratégicas para a economia nacional precisam de até o dobro disso para serem mantidas. Veja: Algodão: 607 litros por metro quadrado por ano Soja: 425 litros por metro quadrado por ano Milho: 501 litros por metro quadrado por ano Trigo: 285 litros por metro quadrado por ano No caso do algodão, por exemplo, um metro quadrado da cultura exige praticamente a água que dois metros quadrados de floresta amazônica intacta ajudam a gerar. 💸 Os pesquisadores cruzaram esses volumes com o custo médio da água no setor agrícola brasileiro — cerca de US$ 0,0198 por metro cúbico. O resultado: cada hectare de floresta intacta gera aproximadamente US$ 59,40 por ano em provisão de água. Multiplicado pelos cerca de 330 milhões de hectares da Amazônia Legal, o valor alcança US$ 19,6 bilhões anuais. Em um país onde a agropecuária responde por cerca de 6,5% do PIB — e onde aproximadamente 85% da produção depende diretamente das chuvas — a estabilidade do regime hídrico não é apenas uma questão ambiental, mas econômica. “A floresta é um bolsão de umidade global. Se temos menos floresta, temos menos umidade na atmosfera, consequentemente menos nuvens e chuva não só naquela região, mas em todo o país. Por isso, o que acontece lá afeta todo mundo”, explica. COP30 - Como a floresta produz chuva? g1 E como essa chuva é gerada? A floresta funciona como uma gigantesca bomba de umidade. As árvores absorvem água do solo e liberam vapor pelas folhas em um processo chamado evapotranspiração. Esse vapor sobe para a atmosfera e passa a ser transportado por correntes de ar que cruzam o continente — os chamados “rios voadores”. Esses fluxos levam umidade da Amazônia para o Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil, regiões que concentram parte significativa da produção agrícola. Depois, essa umidade se transforma em chuva e irriga plantações que estão a milhares de quilômetros de onde a floresta começa. Rios voadores G1 O que o desmatamento faz com essa engrenagem? Segundo os especialistas, o desmatamento acumulado vem destruindo a floresta e a consequência disso é um impacto direto na produção de chuva e, consequentemente, na economia do país. Para medir o impacto da perda de floresta, os pesquisadores analisaram o quanto a precipitação diminui à medida que áreas são desmatadas. País tem queda no desmatamento, mas número está longe de ser zero Divulgação/Ipaam Os modelos indicam que, a cada 1% de área desmatada — o equivalente a cerca de 400 km² — a precipitação média anual cai aproximadamente 3 milímetros. Desde a década de 1970, cerca de 80 milhões de hectares de floresta amazônica foram perdidos. Segundo as estimativas do estudo, isso equivale a uma redução potencial de aproximadamente US$ 4,8 bilhões por ano em serviços de geração de chuva . Áreas protegidas e o valor da floresta de pé Cerca de 220 milhões de hectares da Amazônia brasileira estão hoje sob algum tipo de proteção. Essa área, sozinha, seria responsável por gerar algo em torno de US$ 13 bilhões por ano em provisão de água. As terras indígenas, que somam aproximadamente 110 milhões de hectares, responderiam por cerca de US$ 6,5 bilhões anuais em geração de chuva. Segundo os pesquisadores, o investimento público destinado à manutenção dessas áreas corresponde a apenas uma fração do valor econômico que elas ajudam a sustentar. Recentemente, o Brasil anunciou a menor taxa de desmatamento na Amazônia em 11 anos. Segundo análise do Inpe, desmatamento foi de 5.796 km². Apesar da queda, o número escancara que ainda existe destruição na floresta e que esse é um desafio ambiental e econômico para o país.

FONTE: https://g1.globo.com/meio-ambiente/noticia/2026/03/01/chuva-produzida-pela-amazonia-vale-mais-de-r-100-bilhoes-por-ano.ghtml


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