O delírio coletivo de quando Wagner Moura virou vocalista do Legião Urbana por duas noites

  • 04/03/2026
(Foto: Reprodução)
Poucas turnês comemorativas trouxeram um debate tão polarizado entre a técnica e a emoção quanto os dois shows com Wagner Moura nos vocais da Legião Urbana. Para os músicos remanescentes, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá, foi uma catarse coletiva e uma homenagem à memória de Renato Russo. Para a crítica e para uma parte mais exigente dos fãs de Legião, aquele foi o pior papel interpretado por Moura, que concorre ao Oscar de Melhor Ator por “O Agente Secreto”. A decisão de convidar Moura para liderar o tributo nos 30 anos de criação da banda não foi por acaso. O convite partiu de Dado e Bonfá. Eles nunca viram no ator um substituto técnico, mas alguém com uma "energia legionária". O “teste" para o papel veio em trilhas sonoras: em “O Homem do Futuro” (2011), ele cantou "Tempo Perdido"; e em VIPS (2010), deu voz a "Será". As duas performances deixavam bem claro: o que unia Wagner e Renato era a teatralidade. Wagner Moura no Tributo a Legião Urbana em 2012 Caio Kenji/g1 A experiência de Moura como cantor não vinha só do cinema. Em 1992, em Salvador, ele fundou a banda Sua Mãe com amigos da faculdade de jornalismo. O som misturava o pós-punk de grupos como The Cure e Smiths com o brega de Waldick Soriano e Odair José. Quando o convite para o tributo chegou, Moura estava filmando “Praia do Futuro” na Alemanha. Aceitou por ser fã e pelo desejo de cantar com seus ídolos. Evitar um imitador de Renato Russo era vital para que o projeto fosse visto como um tributo, e não uma substituição. A vida foi curta: duas noites no Espaço das Américas, em São Paulo, em maio de 2012. O objetivo era a gravação de um especial da MTV, com direção de Felipe Hirsch. O evento contou ainda com Andy Gill, do Gang of Four, banda que Renato Russo amava, e Bi Ribeiro (baixista dos Paralamas do Sucesso). Nem tudo foi celebração. Um conflito jurídico ameaçou o evento. Giuliano Manfredini, filho de Renato Russo e detentor da marca "Legião Urbana", mantinha uma relação tensa com os músicos. Impedidos de usar o nome original, Dado e Bonfá tomaram todo o cuidado para não correrem riscos. Mesmo assim, Manfredini questionou o preço dos ingressos e a escolha de Moura. A disputa quase fez o projeto ser cancelado. Na estreia, no dia 29 de maio de 2012, o som foi prejudicado por microfonias e outras falhas técnicas. Foram errinhos aqui e ali, como a vez em que Bonfá interrompeu a introdução de "Pais e Filhos" para recomeçar a música após um erro. Quem gostou disse que parecia um ensaio aberto, uma coisa íntima. Wagner Moura no Tributo a Legião Urbana em 2012 Caio Kenji/g1 Wagner Moura, super emocionado, enfrentou dificuldades para se manter afinado. Ganhou a plateia mais na garra e na devoção. O ponto alto foi a inclusão improvisada de "Faroeste Caboclo". A música não havia sido ensaiada, mas ao ver sete mil pessoas cantando a letra quilométrica, o ator decidiu se jogar. Deu certo. O fato de a letra ser mais falada do que cantada, claro, ajudou. O que disse Wagner Moura? Wagner Moura no Tributo a Legião Urbana em 2012 Caio Kenji/g1 Apesar das críticas e da sensação de que o show parecia um "karaokê" de luxo, muitos fãs se sentiram representados pelo suor de Moura. O ator defendeu sua performance contra o que chamou de "idiotice" dos críticos que esperavam uma imitação perfeita. Em 2021, no podcast “Mano a Mano”, ele falou do tributo com bom humor. Admitiu a baixa qualidade técnica, mas reafirmou o valor sentimental, descrevendo-se como "um fã que eles cataram na plateia". "Eu nunca fui tão esculachado em toda a minha vida. Nem por ‘Tropa de Elite’ eu tive tanto hate”, ele comparou, citando seu papel como Capitão Nascimento. "Foi emocionante pra cacete. Eu desafinei? Desafinei. Estava ruim? Estava. Mas eu faria tudo de novo, foi um dos momentos mais incríveis da minha trajetória." Uma trajetória que segue com momentos igualmente incríveis, incluindo prêmios de Melhor Ator no Globo de Ouro e no Festival de Berlim. Wagner Moura faz história ao vencer Globo de Ouro

FONTE: https://g1.globo.com/pop-arte/cinema/noticia/2026/03/04/o-delirio-coletivo-de-quando-wagner-moura-virou-vocalista-do-legiao-urbana-por-duas-noites.ghtml


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